O combate à desertificação vem mobilizando órgãos multilaterais, governos e Organizações da Sociedade Civil (OSC) ao redor do mundo. No Brasil, um dos mais exitosos projetos é o REDESER, uma iniciativa conjunta da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA) e do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF). No final de dezembro, os gestores do projeto fizeram um balanço da atuação ao longo de 18 meses em 14 comunidades encravadas no ecossistema de Caatinga, na Bahia.
O projeto beneficiou cerca de 400 pequenos agricultores baseados nos municípios de Uauá e Monte Santo. Eles receberam treinamentos enfocando segurança alimentar e hídrica e conservação da biodiversidade, com vistas a fortalecer a convivência com o semiárido e combater a desertificação. As ações foram executadas pela Fundação Araripe, com apoio da Escola Família Agrícola do Sertão (EFASE) e a Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (COOPERCUC), com o objetivo de
Segundo Manoel Timbó, coordenador do projeto na FAO, os resultados são concretos. "Com o projeto REDESER, implementamos uma estratégia de agricultura e pecuária resilientes ao clima, transformando a Caatinga em um laboratório de inovação e oportunidades. Também fortalecemos o capital social da região, criando bases sólidas para o combate à desertificação”, explicou.
No decorrer das capacitações, cada comunidade recebeu um Plano de Gestão Integrada de Recursos Naturais (GIRN) e Planos de Uso Potencial e Sustentável para suas áreas florestais coletivas, documentos que permitiram um planejamento mais eficaz do uso dos recursos naturais do bioma. A difusão dessas práticas resultou no aumento do cultivo de produtos da Caatinga, que hoje são comercializados por cooperativas locais, inclusive para a indústria de alimentos e de cosméticos.
As atividades do projeto também incluíram o desenvolvimento de um inventário florestal detalhado, que passou a orientar o uso de mais de 16 mil hectares de vegetação nativa, com foco na valorização dos produtos florestais não madeireiros. Além disso, para auxiliar o processo de formação dos agricultores, o REDESER montou unidades demonstrativas, gerando modelos replicáveis de diferentes sistemas agrícolas e florestais (SAF), como agroflorestas, sistemas silvipastoris (ILPF da caatinga), apiários, meliponários e barragem de base zero.
Desde os anos 1980, as comunidades de fundo de pasto no sertão nordestino vêm lutando pelo reconhecimento e regularização de suas terras. Maria da Glória Cardoso do Nascimento, uma das fundadoras da Escola Família Agrícola do Sertão (EFASE), relembra que essa trajetória foi marcada por conflitos. "Nós lutamos tanto pelo resgate da terra como contra os grileiros, que foram muito fortes aqui. Pessoas de fora vinham, compravam um pedacinho de terra, cercavam-no e o tomavam dos trabalhadores", recorda. Espaços como a EFASE hoje simbolizam a resistência e a identidade das comunidades.
O projeto REDESER trabalha pela valorização dessas áreas, unindo práticas agroecológicas modernas e o conhecimento tradicional. Maria da Glória destaca a relevância da iniciativa: "Achei importantíssimo esse trabalho, essa oportunidade que o projeto nos deu, de inserirmos os técnicos nas comunidades com mais conhecimento. É uma vitória tanto para nós quanto para eles".
Apesar dos avanços, as comunidades de fundo de pasto ainda buscam titulação definitiva das terras e mais visibilidade. Atualmente, elas estão em busca pelo reconhecimento como um Sistema Importante do Patrimônio Agrícola Mundial (SIPAM), título concedido pela FAO a práticas agrícolas que geram meios de subsistência nas áreas rurais, combinando biodiversidade, ecossistemas resilientes, tradição e inovação de maneira única.
"Até pouco tempo ninguém tinha escutado falar das áreas tradicionais de fundo de pasto. Só com a luta dos trabalhadores, esses projetos e a escola é que ganhamos destaque, e esse trabalho de pertencimento e valorização é bem importante", ressalta Maria da Glória. O reconhecimento como SIPAM não apenas trará visibilidade internacional, mas também fortalecerá as estratégias de conservação e gestão sustentável da Caatinga.
Desenvolvimento da apicultura
Em Uauá, o REDESER foi um divisor de águas para os agricultores familiares, especialmente apicultores. Maciel da Silva Rodrigues, presidente da associação comunitária, relembra como o projeto trouxe novos conhecimentos e soluções práticas para atividades que já eram desenvolvidas desde os anos 90. "A gente agradece muito o projeto, porque impactou muitas famílias", afirma. A capacitação técnica e os equipamentos entregues pelo REDESER, ampliaram a capacidade produtiva e resolveram desafios históricos enfrentados pela comunidade.
Antes do apoio, a colheita de mel era limitada pela falta de infraestrutura adequada. “Quando chegava a época da colheita, a gente tinha que pedir o equipamento emprestado das comunidades distantes, e, quando chegava a nossa vez, já tinha passado a época da safra”, explica Maciel. Agora, com a centrífuga própria entregue pelo projeto, o cenário mudou.
O equipamento permite que os apicultores processem o mel no tempo certo, aumentando tanto a eficiência quanto a qualidade do produto. A previsão de produção, que girava em torno de 350 quilos por florada, saltou para estimativas entre 450 quilos e uma tonelada. "Com a chegada da centrífuga a gente vai produzir mais e colher no tempo certo", celebra o agricultor.
Além da apicultura, o REDESER também incentivou a diversificação produtiva por meio de SAFs. Com o cultivo de frutas como goiaba, acerola e umbu, a comunidade passou a integrar uma cadeia produtiva que beneficia cooperativas e pequenos negócios locais. “Na nossa comunidade, temos a produção de sorvete e picolé. A gente fornece as frutas à cooperativa COOPERCUC, eles processam e fazem a polpa, e a gente compra de volta para fazer nossos produtos”, conta Maciel. O uso de produtos da agricultura familiar, como licuri, manga e coco, fortalece a economia local e gera novas oportunidades para as famílias envolvidas.
