A vida no centro

Uma espiadela no portal de internet A Vida no Centro nos dá a certeza de que se trata de um projeto inclusivo. Tanto quanto deve ser a região central de uma megalópole como São Paulo, onde vivem e trabalham lado a lado, nem sempre de forma harmoniosa, imigrantes de diversas partes do mundo, migrantes, refugiados, ricos, pobres, empreendedores, agentes públicos… E é justamente na riqueza dessa diversidade que reside a aposta do casal de jornalistas-empreendedores Denize Bacoccina e Clayton Melo, responsáveis pelo portal.

Mais do que apenas um repositório de notícias, debates, dicas culturais e gastronômicas, A Vida no Centro surge com a ambição de ser um instrumento importante do processo de retomada desta rica área da cidade. Tanto em seu potencial futuro, quanto no que já está posto. “Jamais pensei em morar no centro, até decidir voltar a viver na cidade após 14 anos entre Londres, Washington e Brasília”, conta Denize, que nasceu em Cordeirópolis, estudou em Campinas e depois de alguns anos no Correio Popular, em Campinas, se mudou para São Paulo para trabalhar Gazeta Esportiva, cuja redação ficava a uma centena de metros de sua residência, no bairro de Santa Cecília. “Mas mudei de opinião no ano passado, quando decidi encerrar meu ciclo em Brasília”.

O embrião do projeto se deu durante o almoço no mexicano La Central, no Copan, após um passeio pela região central de São Paulo em pleno feriado de Proclamação da República, em 15 de novembro de 2016. A visão das linhas do icônico edifício Copan e de outros prédios históricos, como a Biblioteca Mário de Andrade, além das galerias ao longo da avenida São Luís, ajudaram a reforçar o desejo de fincar raízes no local.

Mas nem tudo saiu como o casal planejava. “Nossa ambição era morar no Copan, contudo, não encontramos um apartamento com uma boa relação custo-benefício”, conta Denize. “Daí, optamos pela praça Roosevelt que eu ainda não conhecia mas pela qual me apaixonei imediatamente. A Roosevelt é hoje o local mais democrático de São Paulo: reúne de moradores com seus cachorros de manhã, frequentadores dos teatros a jovens que vão ao local andar de skate e adolescentes que vem da periferia e passam a noite esperando o transporte para voltar pra casa”. Naquela época, o casal, que estava junto fazia quase cinco anos, vivia separado em quase 1,2 mil quilômetros. Ele na Vila Madalena, em São Paulo, e ela no Lago Norte, em Brasília.

Mais do que morar juntos, eles resolveram empreender juntos, apesar de ainda manterem projetos paralelos. Enquanto Denize atua como representante da agência de notícias Ruptly, da Rússia, Clayton é sócio da StartAgro, uma startup focada em tecnologia agronegócio. Segundo ele, A Vida no Centro não irá substituir ou concorrer com as atividades atuais do casal. Mas, sim, funcionar como um espaço de fomento de debate e ativação de projetos e iniciativas.

Para isso, a dupla está se qualificando para atuar nos segmentos de curadoria de conteúdo, consultoria e produção de estudos de oportunidades de investimentos. “Tudo será feito de forma colaborativa, em rede e com muitas parcerias”, explica Clayton. “Nossa intenção é agregar um número cada vez maior de atores neste importante debate”.

De fato, nenhum projeto de retomada e requalificação de regiões centrais para de pé sem que haja alguns elementos fundamentais. O primeiro deles é um olhar diferenciado sobre as pessoas que vivem no local e suportaram o tempo de “vacas magras”. O segundo é o uso de tecnologias capazes de melhorar a mobilidade local e a interseção com as demais áreas da cidade. A terceira é a atração de novos moradores, de faixas etárias e backgrounds de vida distintos. Último, mas não menos importante, a recuperação da área central precisa ser um projeto de toda a cidade.

EXEMPLOS GLOBAIS

Apesar de ter se dado numa realidade totalmente distinta de Detroit, a antiga capital do automóvel, que teve a falência decretada em 2013, São Paulo pode tirar lições importantes deste processo. A primeira delas é o uso intensivo da economia criativa, como alavanca de fomento de negócios e geração de empregos. O segundo é a participação ativa de seus moradores, novos ou antigos, em todo o processo.

Muitos deles, aliás, estiveram presentes no sábado 26/8 na festa de lançamento do projeto numa rodada do Sambacana, no terraço do Copan. O casal pegou carona na festa organizada pelo amigo Israel do Vale, criador da festa que marcou época nos anos 2000, parou por um tempo e agora está sendo retomada.  Nada mais colaborativo, né!? “A festa de samba-rock, liderada por Israel e pelo DJ Théo Werneck, há 13 anos, é um desses símbolos de resistência criativa da região central da cidade”, diz Clayton.

Apesar de ter sido criado na Zona Sul da capital, o jornalista-empreendedor sempre teve na região central um ponto de referência para lazer e cultura. Desde os barzinhos até a galeria do rock e a loja de discos Woodstock, locais que ajudaram a consolidar seu gosto por este ritmo que professa na condição de vocalista da banda Os Esporádicos.

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