Do skate, do punk e do hip hop, no DF, para a revolução afro-latina

Do skate, do punk e do hip hop, no DF, para a revolução afro-latina

Quem acessa o site da Instituto Afrolatinas percebe, de imediato, que está ingressando em um universo dominado por mulheres potentes. A começar pela rica biografia de suas 11 dirigentes. São antropólogas, psicólogas, sociólogas, artistas multimídia, roteiristas, empreendedoras, produtoras culturais e jornalistas. Muitas das quais com títulos de doutorado e mestrado, entre outros importantes reconhecimentos em suas áreas de atuação.

Toda essa rica diversidade converge para um traço em comum: a valorização da cultura, da estética, do bem-estar e, por que não dizer, da forma singular do “fazer feminino”. Na liderança desse grupo está a jornalista e produtora cultural Jaqueline Fernandes, 41 anos, que fundou o Instituto, em 2019, como uma forma de amplificar a voz das mulheres negras da periferia de Brasília, sua terra natal. No entanto, ela conseguiu ir muito além.

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Atualmente, o Instituto possui como carro-chefe o Festival Latinidades, que reúne artistas, intelectuais, empreendedoras e realizadores culturais de todas as Américas. Por seu palco já passaram nomes como a ativista norte-americana Angela Davis, cofundadora do grupo Panteras Negras, o rapper brasiliense G.O.G. e outras personalidades de destaque da intelectualidade, como Conceição Evaristo, Sueli Carneiro, Jurema Werneck, Paulina Chiziane, Ana Maria Gonçalves e Djamila Ribeiro. “O Festival é diverso e inovador desde a sua concepção, pois nosso objetivo é mostra que a mulher preta e periférica produz cultura e conhecimento que geram negócios”, diz Jaqueline.

Essa história, no entanto, começou muito tempo atrás. Mais precisamente em 1993, quando Jaqueline recebeu um fanzine das mãos de um jovem punk, enquanto circulava pela rodoviária do Plano Piloto, em Brasília. Aos 13 anos, nascia outra Jaqueline. “Mesmo convivendo com um irmão (Fabiano, já falecido) que curtia a cena underground e usava cabelo moicano, foi naquele instante que despertou meu gosto pela filosofia anarquista”, conta. A partir daí, ela começou a frequentar os espaços dedicados ao movimento, inclusive comunidades punks. “Enquanto minhas amigas matavam aula para ir namorar, eu saía de Planaltina para o Novo Gama, para fazer reuniões, escrever fanzines e planejar futuros e rotas fora do sistema”.

afro latina 1 papo Sueli Carneiro e outraMakota Valdina (à esq.), Sueli Carneiro e JaquelineJaqueline interna cofundadora do FestivalJaqueline com Chaia Dechen (à esq.) cofundadora do Festival

No tempo gasto dentro do ônibus para percorrer os 90 km que separam as duas cidades-satélites do Distrito Federal, a fundadora do Instituto Afrolatinas aproveitava para colocar a leitura em dia e arriscar alguns poemas. Mais tarde, essa produção literária se converteu em letras de música nas bandas de hardcore que ela fez parte como baixista e letrista. “A vontade que eu tinha de tocar e expandir a mensagem acabou me fazendo tomar a frente de alguns processos e me tornar produtora cultural”, lembra. Entre a jornada escolar e os ensaios, Jaqueline percorria os botecos da periferia de Brasília para buscar espaço para se apresentar, além de distribuir cartazes anunciando os shows.

Anos depois, liderou a transformação de um terreno semiabandonado, pertencente ao pai do então namorado, em um skate park. “Nós mesmos capinamos e fizemos a limpeza do lote, buscamos patrocínio com lojas de materiais de construção locais e  levantamos uma minipista de skate”, lembra, com indisfarçável ponta de orgulho.

Tamanho esforço deu origem à série de festas Só Rock Planaltina, na qual eram cobrados módicos R$ 3,00 pelo ingresso. “Na época, não tinha ideia que o nome para a `correria´ que fazia era produção”. Aqui é importante dizer que a jovem baixista e poetisa Jaqueline acalentava o sonho de se tornar jornalista. Tentou por três vezes ingressar na prestigiosa e disputada Universidade de Brasília (UnB), mas acabou desistindo e foi estudar no IESB – Centro Universitário de Brasília.

O período noturno permitia-lhe conciliar o curso de jornalismo com o trabalho em uma produtora baseada no Plano Piloto, área central da Cidade. Algo que seria impossível se tivesse passado na UnB, onde o curso é em horário integral. “Às vezes fico pensando que eu me sabotava, já antecipando os problemas que teria, não apenas de grana, como de saúde mental, pelo fato de estar em um lugar onde, sabidamente, as mulheres negras da periferia não eram bem acolhidas”.

Mas a decepção (mesmo) veio ao final de um bate-papo com um de seus ídolos do jornalismo que, à época, dirigia a Radiobrás, para quem foi apresentar seu trabalho de conclusão de curso, o famigerado TCC. O tema era integração da mídia latino-americana nos meios de comunicação e a acolhida foi bastante positiva. “Ele elogiou bastante o trabalho e me incentivou a continuar com a pesquisa. Contudo, ao final da entrevista e descobrir que eu estava com 25 anos, disse que eu estava velha demais para começar na profissão”.

Jaqueline Interna Tempos de SkateCom a amiga Janubia Azevedo (à esq.), em 1995A deselegante (para dizer o mínimo) observação não demoveu Jaqueline de seu intento de atuar na área da comunicação. Tanto que na rica lista de competências de sua biografia, ela faz questão de destacar a especialização em Comunicação Estratégica. Mas se as redações perderam uma jornalista promissora, o ativismo identitário e a área de produção cultural ganharam uma profissional potente e inovadora. Entre 2004 e 2019, Jaqueline participou de todos os mais importantes movimentos culturais do Distrito Federal, focados na cena hip hop, no empreendedorismo liderado por mulheres e na cultura latino-americana. Fez isso tanto por meio do Festival Latinidades, que idealizou e dirige até hoje, como também no poder público, no qual atuou como subsecretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Governo do Distrito Federal, no período 2015-2018.

O Instituto Afrolatinas vem em outro contexto de afirmação e provação, pelo qual ela passou nos primeiros anos. Apesar da consistência do Festival, sua realização sempre se constituía em uma tarefa hercúlea. A começar pela busca por patrocínio público e privado. As interlocuções com empresários e agentes do poder público já renderam muitos momentos de saia justa, desconforto e racismo explícito, relatados com certa dose de humor ácido por Jaqueline. “Afinal, trazer os movimentos culturais da periferia de Brasília para ocupar a região central e a Esplanada dos Ministérios era considerado uma afronta, por muitas pessoas”, diz.

Os obstáculos se sucediam e iam desde a inexplicável demora na obtenção de alvarás para realização de shows até o comportamento arbitrário dos policiais, sempre enviados para monitorar e terminar a festa mais cedo. “Em um dos eventos, enquanto a Angela Davis ocupava o palco e fazia um discurso potente, soubemos que a PM estava do lado de fora dando baculejo nos jovens, apenas pelo fato de serem pretos e periféricos”. Trata-se de uma atitude bastante diferente da adotada em outros eventos na capital federal, onde os recortes de raça, gênero e classe social são outros. 

Além das dificuldades inerentes ao racismo cotidiano e institucional, Jaqueline sempre teve de lidar com interlocutores que cultuam uma visão ultrapassada e equivocada do papel da cultura. “É comum que tanto os agentes do poder público quanto do privado enxerguem a cultura como sinônimo de entretenimento e intervalo cultural, e não por fortalecer identidades, gerar negócios e formação técnica e política”. Esse dilema acompanha até hoje a trajetória da Griô Produções, produtora cultural especializada em cultura negra que formou em 2007, junto de mais duas sócias e que, muitas vezes, acabou sendo colocada em um não-lugar. “Quando íamos discutir patrocínio com as empresas, diziam que éramos social demais. Por outro lado, quando o interlocutor era o setor público, falavam que éramos empresa”.

A criação do Instituto Afrolatinas ajudou a organizar melhor os diversos universos de atuação de Jaqueline. Atualmente, ele funciona como uma plataforma de iniciativas focadas na promoção e na valorização do trabalho das mulheres negras da América Latina. São programas robustos de potencialização de saberes e transformação do talento artístico e cultural em negócios consolidados e sustentáveis.

jaqueline presidente Lula 1 papo retoO então presidente Lula, na plateia do Festival Como não poderia deixar de ser, a fina ironia está presente até no nome de batismo de alguns projetos. A começar pelo Serviço de Preta, que busca ressignificar uma expressão popular, atribuindo-lhe um caráter positivo. Outro é a tradução livre de R&B que, do original Rhythm and Blues, se tornou Rhythm and Business e é focado no apoio a artistas negros, homens e mulheres, dentro da cadeia de negócios da música.

A mais recente conquista do Instituto é a Casa Afrolatinas, um espaço no Varjão que funcionará como um hub de criação, fomento de carreiras, trocas de experiências e acolhimento para as mulheres do Distrito Federal e de toda a América Latina. Jaqueline e suas 10 parceiras nessa empreitada sabem bem da importância e o tamanho do trabalho que têm pela frente.

Mas quem sabe contar melhor essas histórias é a jornalista, produtora, maker, gestora cultural e empreendedora Jaqueline. E, para nossa sorte, ela topou integrar o time de colunistas de 1 Papo Reto. Portanto, a partir da segunda-feira, 23/8, teremos o prazer de conhecer mais histórias e insights de tudo que rola no universo das mulheres pretas, periféricas e globais da América Latina. Afinal, lugar de fala é tudo.